quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Sui caedere ou síndrome de Sunsan Sontag

16 de junho de 2007, quinta-feira, duas horas da tarde. Uma multidão se aglomerava na calçada do outro lado da rua onde moro. Um pouco mais a frente, três viaturas e pelo menos mais quatro cabos policiais. A movimentação era simplesmente incompatível com o horário. Na verdade, a movimentação era incompatível com qualquer situação normal. Algo muito estranho estava acontecendo.

Eu estava na garagem, esperando o portão abrir para eu subir a rampa e finalmente sair. Foi quando atingi a calçada que vi essa cena e tive dimensões do que estava havendo. Alunos da escola ao lado, moradores dos prédios vizinhos e outros transeuntes parados na rua olhando para frente.

Enquanto uma mulher de meia-idade bloqueava a saída da garagem com seu Renault Clio, olhei na direção que todos olhavam. No prédio vizinho ao meu, um homem dependurado em uma janela ameaçava se suicidar. Imediatamente pensei: “Se ele realmente quisesse se jogar, já teria se jogado”. Eu tinha absoluta certeza que ele não ia se jogar. Mesmo assim, inevitável não ficar impressionada com a situação.

Ainda meio atordoada, tornei a olhar para frente. Desta vez, percebi flashes que vinham das mais diferentes direções. Câmeras digitais e celulares de todos os tipos. Vários curiosos fotografavam a cena. Era como se a multidão gritasse “Pula! Pula logo, que eu quero uma foto!”. Quem sabe eles não conseguiriam uma imagem mais interessante se o homem se atirasse? No mesmo instante, minha garganta deu um nó. Senti nojo. Tive vontade de atropelar todos eles. O que eles fariam com uma foto daquelas?

Acelerei o carro, quis gritar e sair logo dali. Meu maior desejo naquele instante, no entanto, era não ser mais parte dessa raça (des)humana e asquerosa. A repulsa era tão grande que não coube em mim. Comecei a chorar copiosamente. Fiquei enjoada, trêmula, quase não consegui dirigir. Durante o trajeto inteiro xinguei internamente toda a humanidade e me derreti em lágrimas. Só me recompus ao chegar ao trabalho.

Quando cheguei em casa, lá pelas 22h, liguei imediatamente para o porteiro a fim de saber o desfecho da história. Felizmente, quem quer que seja, não se jogou, como eu havia previsto. E nós, quando vamos jogar pela janela esse gosto barato pelo mórbido?

3 comentários:

Anônimo disse...

Sunsan Sontag... Rê, às vezes eu me pergunto...de onde vc tira essas coisas? Gostei do texto. Situações adversas resultam em bons textos... Nossa, depois dessa estou me sentindo um dos fotógrafos amadores da tarde de ontem. Mas como vc disse, se ele quisesse mesmo se jogar, teria feito logo...Vc sabe como é... Temos q ter pena das pessoas q ñ enxergam a fragilidade humana, e buscam o sensacionalismo barato...hunf... na próxima vida quero ser uma coruja... \o/ vou indo antes q esceva mais besteiras... bjo bjo

Soo Matos disse...

Muito bom o post... VocÊ deu aula pra mim nesse dia? :D

Danilo "Minduim" disse...

É um absurdo mesmo. Igual acidente em estrada, onde todo mundo reduz a velocidade. Agora, pregunta pra ver se alguém pára pra ajudar em alguma coisa?